Mico-leão-preto: de “extinto” a símbolo da luta pela conservação

Uma das metas do Sistema Ambiental Paulista para a conservação da espécie é reverter o processo atual de degradação

Texto: Anna Karla Moura

Patrimônio ambiental paulista, símbolo da luta pela conservação da biodiversidade e testemunho vivo da importância das unidades de conservação. O mico-leão-preto (Leontopithecus chrysopygus), espécie endêmica, ou seja, de distribuição restrita ao estado de São Paulo, foi considerado extinto pelos quase 65 anos em que não houve registro de sua ocorrência. Até que uma pequena população dessa espécie foi encontrada na década de 1970, na região do Pontal do Paranapanema, extremo oeste paulista.

Uma segunda chance dada pela natureza para que o mico-leão-preto não desaparecesse em definitivo. Contudo, restavam pouquíssimos indivíduos, tornando a situação bastante delicada e sem chances para erros. Hoje, a espécie continua sendo uma das espécies de primata mais ameaçadas do planeta, porém houve muitos avanços desde aquela época.

O caminho para a recuperação

Na década de 1970, foi estabelecida a primeira população em cativeiro da espécie, com sete indivíduos do Parque Estadual Morro do Diabo encaminhados ao Centro de Primatologia do Rio de Janeiro. Em 1985, mais seis machos e oito fêmeas resgatados na área que seria inundada pela hidrelétrica de Rosana foram transferidos para a Fundação Parque Zoológico de São Paulo (FPZSP). Foram as duas primeiras experiências com o mico-leão-preto em cativeiro.

Diversos estudos realizados nas décadas de 1980 e 1990 indicavam que a espécie estava seriamente comprometida. Consequentemente, o mico-leão-preto foi incluído na Lista Nacional das Espécies Brasileiras Ameaçada de Extinção e no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, na categoria “Criticamente em Perigo”.

Foi preciso tomar medidas urgentes para evitar a extinção da espécie. Uma delas foi a criação do Programa Integrado de Conservação do Mico-Leão-Preto, baseado no Manejo de Metapopulação, cujo objetivo geral foi o de manejar todos os indivíduos conhecidos, tanto em cativeiro quanto em vida livre, como população única.

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), juntamente com a FPZSP e outras instituições parceiras, trabalhou no desenvolvimento e implementação de estratégias com o objetivo de reverter a situação de ameaça e promover a recuperação do mico-leão-preto por meio do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Mamíferos da Mata Atlântica Central (PAN Mamac).

A FPZSP vem desenvolvendo trabalhos com o mico-leão-preto desde 1986 para manter uma população demográfica e geneticamente viável, cuja existência possa subsidiar o desenvolvimento de estratégias de conservação integrada, que aliam os estudos realizados em cativeiro e as ações voltadas para as populações de vida livre.

 A criação do Parque Estadual do Morro do Diabo e da Estação Ecológica Mico-Leão-Preto foram cruciais para a recuperação da espécie. 

A criação dos animais em cativeiro permite a realização de pesquisas científicas por equipes interdisciplinares, proporcionando um conhecimento mais aprofundado sobre a espécie, seu comportamento, reprodução, hábitos alimentares, visando à otimização do manejo da fauna e ao reforço populacional (para possíveis solturas e reintrodução do animal ao seu habitat). As pesquisas também ajudam a desenvolver estratégias para trabalhar com os animais que estão soltos na natureza.

A criação do Parque Estadual do Morro do Diabo, em 1986, e da Estação Ecológica Mico-Leão-Preto, em 2002, ambas localizadas na região do Pontal do Paranapanema e interligadas por um corredor ecológico, foram iniciativas de imensurável importância. As unidades de conservação proporcionaram à espécie mais de 40 mil hectares de área preservada para que possam viver em equilíbrio com seu ecossistema de origem.

O mico-leão-preto hoje

Os diversos esforços em prol da conservação da espécie, provenientes de diversas esferas (pública, por meio dos governos estadual e federal; acadêmica, por meio de institutos de pesquisa; civil, por meio da sensibilização e envolvimento das comunidades locais) renderam excelentes resultados. Merece destaque o trabalho desenvolvido pelo Instituto de Pesquisas Ecológicas – IPÊ, que, embora hoje trabalhe com projetos de proteção a diversas outras espécies, surgiu a partir de um programa de conservação dessa espécie. O mico-leão-preto saiu da categoria “Criticamente em Perigo” para “Em Perigo” nas listas nacional e estadual de Espécies da Fauna Ameaçada de Extinção, assim como na classificação internacional da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Em junho de 2015, o Sistema Ambiental Paulista, por meio da FPZSP, consolidou o trabalho com a abertura do Centro de Conservação de Fauna Silvestre do Estado de São Paulo (Cecfau), localizado no município de Araçoiaba da Serra.


Kako, o primeiro mico-leão-preto a nascer no CECFAU

O objetivo dessa importante e pioneira iniciativa é dotar o país de um espaço projetado para o desenvolvimento de pesquisas e de programas integrados, com a missão de promover a conservação da fauna silvestre em vida livre e em cativeiro.

As espécies transferidas para o Cecfau foram selecionadas pelo corpo técnico, para compor projetos de reprodução com o objetivo de reforçar populações de espécies ameaçadas na natureza, bem como a construção de banco genético de reserva e de pesquisa. O mico-leão-preto é uma das espécies prioritárias que integram os trabalhos do Cecfau.

Hoje, a população mundial em cativeiro é de 55 indivíduos. Na natureza, estima-se que existam aproximadamente 1.400 animais.

Em julho de 2015, foram transferidos para o centro dez micos-leões-pretos para dar início ao programa integrado de conservação da espécie. Em novembro do mesmo ano, foi comemorado o primeiro nascimento de mico-leão-preto no Cecfau. Um grande marco, por se tratar de um filhote oriundo de uma nova linhagem, reforçando a qualidade genética da espécie em cativeiro. O fato se alinha ao paradigma adotado pela FPZSP no desenvolvimento de programas integrados de conservação da biodiversidade, envolvendo trabalhos e pesquisas em cativeiro com ações diretas nos biomas originais de espécies ameaçadas da fauna silvestre brasileira.

Atualmente, a população mundial em cativeiro é de 55 indivíduos. No Brasil, os animais estão no Zoológico de São Paulo, no Cecfau, no Centro de Primatologia do Rio de Janeiro e no Zoológico de São Carlos. No exterior, a população em cativeiro se concentra na Europa, com oito indivíduos.

Em natureza, a população total remanescente é de aproximadamente 1.400 animais, mas um novo censo está em andamento nas áreas de ocorrência da espécie. A maioria dos indivíduos está localizada no Parque Estadual do Morro do Diabo, unidade de conservação que tem como símbolo o mico-leão-preto. O animal também pode ser encontrado em outras regiões do estado de São Paulo, como Capão Bonito e Angatuba.

Uma das metas do Sistema Ambiental Paulista para a conservação da espécie é reverter o processo atual de degradação, declínio e extinção das populações em cativeiro e em vida livre, estabelecendo uma população cativa com tamanho e estrutura suficiente para manter a diversidade genética da espécie.


Parque Estadual Morro do Diabo (CC BY SA 3.0)