“Febre do feno”, comum na Europa, é estudada em SP

Núcleo de Palinologia, do ItB, é um dos principais centros de pesquisa do país e desenvolve estudos com aplicações práticas

Texto: Nilton Miúra
Foto: Pedro Calado

A “febre do feno”, muito conhecida nos países frios onde, na primavera, ocorre uma liberação intensa de pólen na atmosfera, causando alergias ou polinoses, é um mal que começa a ser estudado no Brasil, em especial nos Estados do sul do país. Com a ajuda da Palinologia identifica-se o pólen alergênico que se encontra flutuando no ar.

A Palinologia, no Brasil, é uma ciência ainda pouco difundida, restrita a um grupo de pouco mais de dez especialistas nos estados do Amazonas, Bahia, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo. Trata-se do estudo da morfologia externa, estrutura e formação de grãos de pólen e de esporos de samambaias, assim como de seus mecanismos de dispersão e deposição, incluindo os sedimentos fósseis que são de grande importância nas pesquisas arqueológicas e paleontológicas.

O Núcleo de Pesquisa em Palinologia, do Instituto de Botânica, órgão vinculado à Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, criado no início da década de 1960, é um dos principais centros de pesquisa no país, mantendo uma Palinoteca com cerca de 25 mil lâminas de microscopia com grãos de pólen e esporos de samambaias de, aproximadamente, cinco mil espécies de plantas (ver foto em destaque). “A Palinoteca do Instituto de Botânica (IBt) é uma das maiores coleções do Brasil”, afirma a pesquisadora Cynthia Fernandes Pinto da Luz, doutora em Ciências Geológicas e diretora do núcleo.

Alergia

“Alguns tipos de pólen podem causar o entupimento das vias nasais causando incômodos similares aos de uma febre, pois o corpo entende que seja um agente patogênico, como se fosse um vírus e, desencadeia mecanismos imunológicos. Nem todo pólen causa alergia, somente os que contêm proteínas alergênicas são capazes de sensibilizar pessoas suscetíveis”, informa a pesquisadora Cynthia Fernandes.

Em São Paulo, a médica Bárbara Gonçalves Silva, imunologista do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo (IAMSPE), pretende, em seu doutorado, avaliar a ação do pólen nas crises de alergia. “Será um trabalho pioneiro que poderá revelar a existência ou não de pólen alergênico no ambiente de uma cidade como São Paulo”, explica Cynthia Fernandes, que será a coorientadora da pesquisa.

A pesquisa consiste na coleta de pólen em suspensão em alguns pontos da cidade por meio de um aparelho captador de ar por sucção. Depois de dispostos em lâminas de microscopia, o material polínico será identificado e quantificado no Núcleo de Pesquisa em Palinologia, do IBt. Para a investigação imunológica da polinose, provas cutâneas e outros testes serão realizados pela médica com base nas informações sobre os principais tipos de pólen que ocorrem no ar da cidade de São Paulo. Cynthia acredita que o estudo trará novas luzes, tanto para a saúde da população, como para a Palinologia.

 Aplicações

Na Palinologia, os estudos desenvolvidos permitem conhecer a estrutura de um grão de pólen ou de um esporo, descrevendo a sua morfologia, dimensões e outras características, auxiliando na Taxonomia, ou seja, na descrição das espécies. “Os grãos de pólen medem de 5 a 200 micra, isto é, entre cinco e 200 milésimos de milímetro, mas a maioria mede entre 25 a 50 micra”, explica Cynthia Fernandes.

Os conhecimentos palinológicos têm inúmeras aplicações práticas, como a certificação da origem botânica e geográfica do mel, indicando a contribuição das floradas. Este serviço atende aos apicultores e meliponicultores (que produzem mel de abelhas indígenas), os quais, com a indicação da florada, podem obter preços mais vantajosos no mercado.

Nas ciências forenses e criminalística, a identificação dos grãos de pólen e esporos já ajudou a desvendar crimes. “Há na atmosfera, em suspensão, uma grande quantidade de pólen e esporos, que se depositam nas roupas das pessoas”, explica a pesquisadora do IBt. Caso os indicadores encontrados nas roupas de um suspeito sejam os mesmos das plantas existentes no local do crime, a polícia terá mais uma evidência em sua investigação.

A pesquisadora Angela Maria da Silva Corrêa Pando, mestra em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente, relata um caso em que a polícia solicitou ajuda ao Núcleo de Palinologia para a identificação de grãos de pólen para elucidar um caso de estupro. Porém, a evidência microscópica que ajudou a elucidar o crime foi um tipo de tricoma – estrutura vegetal semelhante a um pêlo – de uma gramínea, encontrado na roupa do suspeito.  “A técnica de identificação utilizada foi a mesma que usamos para identificar os tipos de pólen no mel”, ressalta Angela.

Fósseis

O núcleo de pesquisa dedica-se, também, ao estudo de sedimentos fósseis. Na Palinoteca Paleoecológica estão depositadas lâminas procedentes de coletas de amostras de solos. Já a Palinoteca Ecológica possui as lâminas resultantes de pesquisas de polinização zoófila, principalmente com material apícola e de morcegos e mariposas e, anemófila, ou seja, pelo vento. Segundo o pesquisador Luciano Maurício Esteves, doutor em Biologia Vegetal, o estudo dos sedimentos fósseis “nos leva à compreensão mais adequada do ambiente em que vivemos”. Os grãos de pólen e os esporos de samambaias são extremamente resistentes, e vão se depositando no solo ao longo do tempo.

“Por meio da Palinologia nós catalogamos esse material para saber o que está se depositando no meio ambiente. Com escavações, em várias profundidades, coletamos material de centenas de anos, e isso nos permite determinar o perfil da vegetação e inferir as mudanças ocorridas ao longo de cem, duzentos ou quatrocentos anos atrás, num determinado local”, explica.