Brasil é líder em projetos para
venda de créditos de carbono


24|março|2004   

O Brasil é o país com a maior quantidade de projetos de MDL - Mecanismo de Desenvolvimento Limpo em análise no Banco Mundial, visando a venda de créditos de carbono. Dados da instituição financeira, relativos a 2002 e 2003, revelam ainda que a América Latina é responsável por 60% das vendas mundiais já negociadas. Nesse mesmo período, pelo lado dos compradores, os destaques são a Holanda, responsável por 30% das aquisições, e o Japão, que já responde por 23%.

Estas são algumas das informações divulgadas nesta quarta-feira (24/3), no segundo dia do seminário “Créditos de carbono contribuindo para a solução da gestão de resíduos sólidos”, que está se realizando na sede da Secretaria do Meio Ambiente do Estado, em São Paulo, com a participação de representantes, entre outros, dos governos federal, estadual e municipal, Banco Mundial, universidades e ONGs, além de empresários do setor de resíduos sólidos.

Conforme esclareceu Alexandre Kossoy, do Banco Mundial, embora sua instituição não seja a única a intermediar as transações entre compradores e vendedores de créditos de carbono, ela se constitui, sem dúvida, no maior agente mundial a desempenhar o papel de controlador dos recursos financeiros provenientes dos países desenvolvidos e destinados à compra de créditos de carbono dos países em desenvolvimento.

Kossoy explicou que o Banco Mundial criou e administra, ao todo, cinco fundos especialmente voltados para o mercado de carbono, com características diferentes, que contam com um total disponível de cerca de US$ 400 milhões. Um dos fundos, conhecido como Fundo Protótipo de Carbono, que tem a participação de 17 empresas privadas e seis governos de países desenvolvidos, a disponibilidade de recursos é de US$ 180 milhões. Este fundo assumiu o risco de cumprimento dos contratos assinados mesmo que o Protocolo de Kyoto não entre em vigor, o que atualmente está dependendo de decisão de ratificação pela Federação Russa ou pelos Estados Unidos.

O representante do Banco Mundial lembra que o Protocolo de Kyoto, adotado em 1997, sob a Convenção Quadro das Nações Unidas para Mudanças Climáticas, definiu que os países industrializados deveriam reduzir suas emissões de gases de efeito estufa a um percentual de 5,2% abaixo dos limites das emissões de 1990, para o período 2008-2012. Mas, entre as condições estabelecidas, se encontra a exigência de que pelo menos 55 países da Convenção ratifiquem o protocolo, englobando os países industrializados que contabilizaram 55% das emissões totais de dióxido de carbono em 1990. Desta maneira, o início efetivo do protocolo está dependendo da ratificação pela Federação Russa ou pelos Estados Unidos, que têm se mostrado contrários às metas definidas pela Convenção.

De qualquer forma, Kossoy afirma que dos US$ 400 milhões disponíveis nos fundos administrados pelo Banco Mundial, US$ 332 milhões já se encontram em estágio avançado de negociação. No Brasil, o banco intermediou as negociações, já concluídas, de dois projetos: o Plantar, em Belo Horizonte, em Minas Gerais, que envolve a substituição de carvão mineral pelo similar vegetal, com a compra do equivalente a 1,3 milhão de toneladas de dióxido de carbono a US$ 3,5 a tonelada, totalizando US$ 5 milhões, e o Nova Gerar, um aterro sanitário localizado em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. Vários outros projetos estão sendo analisados, como um de co-geração de energia elétrica com aproveitamento do bagaço de cana-de-açúcar, na região de Ribeirão Preto, e de energia eólica para irrigação, no Nordeste.

Arthur César de Oliveira, da SA Paulista, empresa de construção pesada, que tem aumentado sua participação no setor de saneamento básico e ambiental, e que administra o aterro sanitário Nova Iguaçu, diz que o pré-contrato para a venda de créditos de carbono foi fechado em junho do ano passado, com base em um projeto de redução da emissão de gás metano no aterro, aproveitando-o para a produção de energia elétrica. O contrato prevê o pagamento de 3,5 a 5 euros por tonelada de dióxido de carbono, por um prazo de 12 anos, estimando-se a redução total de emissão em 6 milhões de toneladas de gás.

A empresa ainda não começou a receber os recursos do Fundo Protótipo de Carbono, encontrando-se na dependência da aprovação final da Comissão Interministerial de Mudança Global do Clima, do governo brasileiro, que é a Autoridade Nacional Designada para o assunto. Oliveira disse que a expectativa é de que, já no mês de abril, quando haverá uma reunião da comissão, possa haver a aprovação, para que finalmente o projeto seja iniciado de forma efetiva.

O representante do Banco Mundial, por seu lado, acredita que tanto o projeto do Aterro Nova Iguaçu como o Plantar comecem a receber os primeiros recursos provenientes do fundo em 2005, independentemente da entrada ou não em vigor do Protocolo
de Kyoto.

Recursos do Banco Mundial

"Eu acho muito importante que haja eventos como este em que os investidores venham esclarecer os potenciais donos de projetos as condições para a venda de carbono", disse Francisco Maciel, diretor da TC/BR Tecnologia e Consultoria Brasileira S.A., ao se referir às palestras dos representantes do Banco Mundial, Jari Vayrynen e Werner Kornexl.

O Banco Mundial patrocina projetos de redução de emissões de carbono, que serão selecionados de acordo com a sua sustentabilidade, políticas de desenvolvimento sustentável dos países em que as iniciativas estão se desenvolvendo e que preencham as exigências de proteção social e ambiental, aumentando a qualidade de vida das comunidades envolvidas e gerando emprego.

As condições para se obter o financiamento para a compra de créditos de carbono dependem da análise das Notas da Proposta do Projeto, conhecida como PIN – Project Idea Note, que descrevem as atividades e componentes do projeto. No caso de aterros, são itens como a queima em “flares”, a energia gerada, a coleta e o transporte dos resíduos e os componentes de melhoria ambiental. Consideram ainda o estágio de elaboração do projeto com os estudos de viabilidade, avaliação de risco e as opções de financiamento identificadas e, também, a comprovação de que a tecnologia a ser utilizada é viável.

Outro ponto analisado são as Notas de Conceito do Projeto, conhecido pela sigla PCN, avaliando as mesmas informações do PIN de forma mais detalhada e com exigências adicionais, tais como o calculo da Redução das Emissões, a matriz de risco do projeto, as políticas e programas governamentais, implementação e financiamento do projeto e, se houver, um plano de implementação detalhado dos componentes de desenvolvimento comunitário.

São analisados também os documentos do estudo de linha de base, que é o cálculo aproximado das emissões de CO2 do Projeto Mecanismo de Desenvolvimento Limpo – MDL, e um plano de monitoramento das reduções nas emissões.

Com todas as condições preenchidas passa-se para o processo de validação, quando o Banco Mundial contrata um consultor independente que vai estudar todos os documentos apresentados antes de ser assinada a proposta de contrato de compra de créditos de carbono.

Há dois projetos brasileiros aprovados para a redução das emissões de gás metano em aterros, que constituem a base metodológica para empreendimentos similares. São os aterros Veja, de Salvador, na Bahia, e o Nova Gerar, de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. A linha de base - cálculo da redução de emissões - do Nova Gerar é aplicável se houver queima de gás em “flares” ou se o gás for utilizado para geração de energia elétrica.

Segundo Francisco Maciel, o que torna os projetos mais palatáveis depende da sua contribuição social, da titularidade resolvida, dos aspectos financeiros esclarecidos e conformidade legal.

Texto: Mário Senaga / Renata Egydio
Fotos: Pedro Calado