O uso da fotografia, artes plásticas e instrumentos
musicais de plástico na educação ambiental

18|novembro|2004   

A utilização da fotografia, artes plásticas, instrumentos musicais artesanais, jogos e danças para a percepção e valorização do meio ambiente foi o tema abordado por diversos especialistas nesta
quinta-feira (18/11), no curso “Educação Ambiental: Recursos Didáticos Pedagógicos”, promovido pela Coordenadoria de Planejamento Estratégico e Educação Ambiental, da Secretaria de Estado do Meio Ambiente.

A geógrafa e professora Solange Terezinha de Lima Guimarães, da Universidade Estadual Paulista – UNESP, de Rio Claro, destacou a importância da fotografia como recurso técnico para despertar a conscientização ambiental. Ela mostrou como as imagens fotográficas podem ser utililizadas, levando a um estímulo ou desestímulo a ações ambientais, em função do seu conteúdo, que podem mostrar cenários de meios preservados ou degradados.

A professora também alertou para os cuidados que se devem ter no uso da fotografia, por causa da aparência enganosa que as imagens podem exibir, levando a percepções distorcidas da realidade e, muitas vezes, mascarando problemas ambientais graves.

Citando Lowenthal - “Cada um de nós desvia o mundo a seu próprio modo e contempla as paisagens com suas imagens particulares” -, Solange Terezinha afirmou que as fotografias do meio ambiente sempre estão inseridas em três dimensões, que seriam “a biosfera, a tecnosfera e a psicosfera”. Conforme mostrou em sua exposição, “uma coleção de imagens fotográficas constitui-se em uma atividade de sensibilização ambiental, envolvendo multi-estimulação de acuidade perceptiva, cognitiva e afetiva, desenvolvida mediante um processo de educação através de valores, de identificação com a paisagem, onde são enfocados aspectos relativos a sentir-se e ser parte”.

Outra expositora, a terapêuta ocupacional, artista plástica e fotógrafa Maria Regina Marques, falou sobre sua longa experiência com acompanhamento terapêutico de psicóticos, desde 1977, que a levou a trocar o consultório pelo ateliê de artes plásticas, envolvendo, mais recentemente, também a fotografia.

Fazendo um breve histórico de seu desenvolvimento profissional e das mudanças de ambiente e metodologias de trabalho, explicou que o objetivo sempre foi uma melhor compreensão do seu público, sua reinserção e convívio na sociedade para, desta forma, minorar
a sua dor .

E, como resultado dos trabalhos desenvolvidos pelo seu público, através dos trabalhos no ateliê, Maria Regina expôs fotos tiradas por eles, usando câmaras de orifício, que são equipamentos artesanais, fabricadas feitas com latas usadas.

Por fim, o músico, violonista, compositor e construtor de instrumentos musicais Pepê Mata Machado falou sobre os sons do cotidiano e da cidade, lembrando que São Paulo “é uma cidade cheia de sons”, embora muitas vezes sutis e imperceptíveis em meio à “massa de sons” produzidos pelas mais diversas fontes.

Procurando sensibilizar o público presente para a importância dos sons no meio ambiente, o músico apresentou, junto com mais três integrantes, a Orquestra de Plástico, realizando um concerto musical valendo-se de recursos como amassar, sacudir, lançar e torcer folhas, copos, garrafas e garrafões de plásticos, além de vários canos e mangueiras, entre outros materiais, para produzir efeitos de percussão e sopro.

Jogos e dança

O período da tarde contou com a participação de Maria do Carmo Brant de Carvalho, assistente social, pós-doutorada pela École des Hautes Études em Sciencies Sociales, na França, coordenadora geral do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação Cultural e Ação Comunitária – CENPEC e professora de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica – PUC, de São Paulo. Falando sobre o tema “ Jogos de educação ambiental para jovens”, a palestrante apresentou o CD-Rom “Cidadania”, criado pelo CENPEC, que trata da questão da cidade e da cidadania em uma atividade lúdica.

A palestrante falou da importância da “educação extrapolar os muros da escola”, promovendo o processo de aprendizagem no seio da comunidade e da família, por meio de grupos esportivos e aulas de dança, entre outras atividades. “Você aprende a ler e escrever a partir do momento em que lê a realidade”, ressaltou a Maria do Carmo, uma vez que a qualidade da educação deve estar comprometida com metas sociais da nação.

“Para isso, é necessário que o povo se aproprie das informações que são fornecidas, tenha em mente um desenvolvimento local sustentável e que haja uma redução da pobreza no país”, disse. A palestrante também afirmou que o processo de aprendizagem é complexo, num cenário em que as mudanças sociais não são apreendidas. Desta maneira, segundo Maria do Carmo, a geração atual tem um raciocínio cognitivo difuso e descentrado, diferente das outras gerações que pensam de forma seqüencial e linear.

O CENPEC desenvolveu um jogo voltado para o aprendizado dos jovens, utilizando a informática como ferramenta e preocupada em desenvolver a cidadania. O CD- Rom apresentando tem a cidadania como tema e busca, por meio da interatividade, desenvolver o sentimento de igualdade, liberdade, solidariedade, participação e diversidade. O jogo é voltado para jovens entre 15 e 24 anos, no qual o jogador aplica os conhecimentos de informática e conceitos de cidadania dentro de uma cidade.

A linguagem do jogo é dinâmica e moderna, com sons e imagens, 3.700 telas, 47 textos, seis atividades de informática, 15 locais como escolas, bibliotecas e fábricas, a serem percorridos pelos cinco personagens principais e mais 25 coadjuvantes. No decorrer da história os personagens descobrem que o rio da cidade está poluído e vão tentar solucionar o problema. Mas para isso, terão que percorrer toda a cidade, enfrentando desafios e desvendando enigmas.

A palestrante finalizou a sua apresentação ressaltando a importância de todos nós aprendemos a ser, a conviver, a fazer e aprendermos a aprender dentro da sociedade.
Kátia Maria Alves Barata, licenciada em Educação Física e focalizadora de projetos e cursos em jogos cooperativos e aprendizagem cooperativa da COOPERANDO – Instituto para a Cooperação, e Ana Paulo Peron, graduada em Educação Física, pós-graduada em Psicologia do Desenvolvimento Humano e em Jogos Cooperativos, apresentaram a palestra “Jogos Cooperativos”.

A palestra começou com muita animação, com os participantes em pé e interagindo uns com os outros por meio de brincadeiras. Uma delas promoveu uma discussão entre o público, formando duplas em que cada um deveria pensar em algo que é muito importante para si e fechar a mão.

O objetivo da brincadeira é tentar abrir a mão do parceiro e tirar aquilo que lhe é mais importante. Com isso, as palestrantes desenvolveram a idéia de cooperação, pois na sociedade em que vivemos, estamos acostumados a pensar em nós em primeiro lugar. “A cultura da natureza humana é votada para a competição”, ressaltou Katia Barata, porém, o mundo e a nossa vida estão em nossa mãos.

Segundo explicou, podemos mudar o nosso padrão de vida a partir da cooperação, com objetivos comuns, onde as ações e os benefícios são compartilhados. As palestrantes mostraram os jogos cooperativos em que é necessário atingir um objetivo comum a todos. Os participantes jogam uns com os outros e não contra. Joga-se para, juntos, superar os desafios e compartilhar o sucesso. O objetivo é minimizar a competição em prol de uma participação cooperativa.

“Buscamos um mundo melhor, com respeito, o meio ambiente limpo, o ser humano saudável, amor, confiança, amizade e progresso. Diferente do mundo em que vivemos, com guerra, miséria, poluição, competição e derrota”, ressalta Katia Barata.
No final do curso, Edna Kunieda, bióloga e mestra pela Universidade de São Paulo – USP, de São Carlos, apresentou a “Dança Circular”, com a intensa participação do público.

Todos, em círculo, ao som de músicas, deram-se as mãos e dançaram como na brincadeira de ciranda. Edna disse que a atividade, conhecida como dança circular sagrada, é praticada por grupos, onde os dançarinos, em círculo, seguem uma coreografia, movimentando-se ao ritmo de sons específicos.

Inspirando-se nas danças folclóricas, principalmente alemãs, o coreógrafo e bailarino alemão Bernhard Wosien, em 1976, fez uma extensa pesquisa e criou um movimento que chamou de “Danças Circulares Sagradas”. “Essa dança tem o objetivo de desenvolver a cooperação e solidariedade das pessoas, uma vez que ficar em círculo significa que todos são iguais e não há um que se destaca. E isso se reflete na área da educação ambiental. Vivemos numa sociedade competitiva e egocêntrica e a dança circular vem para mudar essa realidade. Desenvolvemos a idéia de cooperação”, ressalta a palestrante.

Texto: Mário Senaga e Priscilla Martini
Fotos: José Jorge