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21|outubro|2004
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O
curso “Cidades: Agendas Locais”, realizado nesta quinta-feira
(21/10) pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado – SMA, reuniu
especialistas de diversas áreas que, de forma unânime, apontaram
a questão da “inclusão social” como o aspecto
crucial a ser considerado nas políticas habitacionais e de desenvolvimento
sustentável dos grandes núcleos urbanos.
O evento foi organizado pela Coordenadoria de Planejamento Estratégico
e Educação Ambiental – CPLEA, órgão
da SMA, dirigido a educadores, estudantes e representantes de entidades
ambientalistas. Segundo a professora Maria Lúcia Refinetti Martins,
coordenadora do Laboratório de Habitação e Assentamentos
Humanos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - FAU, da Universidade
de São Paulo - USP, e membro do Conselho Municipal de Habitação,
“nas grandes cidades brasileiras, a questão ambiental é
associada à forma de ocupação do solo”.
Segundo afirmou, a situação que se verifica atualmente “é
resultado de um processo de industrialização periférica
e dependente, consolidado à base de baixos salários e de
urbanização acelerada, que levou a população
urbana de pouco mais de 30% do total em 1940 a 55% em 1970, chegando em
2000 com mais de 80% da população vivendo em cidades”.
Refinetti esclarece que os assentamentos irregulares se localizam “majoritariamente
nos lugares ambientalmente mais frágeis, ‘protegidos por
lei’, interditados à edificação e desprezados
pelo mercado imobiliário”, lembrando que a “explosão”
da quantidade de favelas se deu a partir da década de 70. Esclarece
também que a regularização é efetivada por
meio de anistias, à margem da lei, e que, no caso da Região
Metropolitana de São Paulo, o número de unidades construídas
desocupadas coincide com o déficit habitacional, por volta de 500
mil unidades. Refinetti conclui que o caminho para a regularização
passa pela inclusão social, envolvendo, entre outros aspectos,
emprego e renda, compromisso e participação da comunidade,
e sinergia de ações setoriais.
O doutor em Saúde Pública pela USP e pesquisador do Centro
de Estudos, Pesquisa e Documentação – CEPEDOC, Francisco
de Assis Comarú, que falou sobre as “Cidades Saudáveis”,
uma agenda mundial que, como a Agenda 21, objetiva um compromisso com
a sociedade, lembrou que o conceito nasceu no Canadá, propagando-se
depois pelos Estados Unidos, Europa e, finalmente, América Latina,
somando cerca de mil cidades no mundo, atualmente, que são consideradas
“cidades saudáveis”.
Explicou que as “cidades saudáveis” têm a saúde
como um produto social, sustentando-se sobre valores como democracia,
eqüidade, solidariedade, autonomia e respeito à diversidade.
Segundo Comarú, as cidades saudáveis trabalham para enfrentar
a exclusão com o compromisso de direcionar as políticas
sociais, especialmente na área da saúde, tendo como referência
a qualidade de vida dos cidadãos.
Nas cidades saudáveis há também o fomento de “redes
sociais”, na base de co-responsabilidade e de cooperação
em torno de objetivos comuns. Entre os desafios, ele lembra o estabelecimento
de uma base de confiança mútua entre os distintos atores
sociais e a definição de metas sociais mobilizadoras.
Já o arquiteto Renato Cymbalista, coordenador do Núcleo
de Urbanismo do Instituto Polis e professor da Escola da Cidade, falou
sobre o “Estatuto da Cidade”. Explicou que o estatuto foi
fruto de movimento nacional pela reforma urbana, na década de 80,
com a inclusão do Capítulo de Política Urbana no
Texto Constitucional de 1988 (artigos 182 e 183), tendo sido aprovado
no Congresso e sancionado pela Presidência em 2001.
O Estatuto da Cidade contempla aspectos como a função social
da cidade e da propriedade urbana, o direito às cidades sustentáveis
e a gestão democrática. Entre os instrumentos previstos,
encontram-se os instrumentos de indução do desenvolvimento
urbano, de regularização fundiária e de democratização
da gestão urbana.
Afirmando que a estrutura e a forma urbana no país reafirmam e
reproduzem a desigualdade, que as regiões de preservação
ambiental são ameaçadas pela ilegalidade e ocupação
precária e que o planejamento territorial tradicional nas cidades
se caracteriza pela separação entre o planejamento e a gestão,
o arquiteto lembrou a importância de um plano diretor, que, conforme
explicou, tem entre suas funções não só propiciar
o crescimento e desenvolvimento econômico local em bases sustentáveis,
como também garantir o atendimento às necessidades dos cidadãos
quanto à qualidade de vida e justiça social, e fazer cumprir
as determinações do Estatuto da Cidade.
Agendas
locais
O
curso contou, no período da tarde, com a participação
do coordenador de Projetos do Instituto Ecoar para Cidadania, José
Luciano de Araújo, que falou sobre “Experiências de
Construção de Agendas 21 locais – Educação
para Gestão Compartilhada”, citando a Agenda 21 do Pedaço,
voltado para comunidades que desejam atingir metas, objetivos e responsabilidades
para a melhoria do seu município ou bairro.
Araújo deu o exemplo do Projeto Convivência e Parceria, realizado
em oito municípios da Grande São Paulo, entre eles Barueri,
Osasco, São Bernardo do Campo e Santo André, envolvendo
moradores que vivem próximo a um duto de combustíveis. O
projeto tem como objetivo sensibilizar a população local
a respeitar as normas de segurança, estimular a participação
de todos nas atividades voltadas para a melhoria do meio ambiente e da
qualidade de vida, despertar os sentidos de compromisso em relação
ao meio ambiente e sensibilizar e envolver a comunidade e funcionários.
Assim, uma equipe de 15 educadores ambientais e 10 monitores locais percorreram
os 50 km do duto, divindo-o em seis pontos específicos e realizando
atividades socioambientais para a melhoria das condições
de vida dos moradores. Dentre as atividades desenvolvidas, destacou a
Oficina de Futuro, na qual a comunidade deveria construir a “árvore
dos sonhos” e o “muro das lamentações”,
estimulando a discussão dos problemas da população
e o que as suas perspectivas futuras.
O palestrante ressaltou também que os bons resultados desse tipo
de trabalho é fruto, não só da participação
da comunidade, mas também do setor privado, sociedade civil, escolas,
igreja e postos de saúde, entre outros. O coordenador do Instituto
Ecoar finalizou sua apresentação revelando que, após
um um ano e meio de Projeto Convivência e Parceria, que envolveu
11.250 pessoas, com 10.800 beneficiários diretos, os resultados
foram consideráveis. “É notável a melhoria
física das comunidades, além da elaboração
de 17 projetos divididos na área do lixo, como a reciclagem, artesanato
voltado para a geração de renda, horta, arte e educação,
saúde e nutrição”, disse.
Agenda
21 em Barueri
Com
o objetivo de sensibilizar a comunidade que orbita em torno da escola,
nas quais estão incluídos, além dos professores e
alunos, funcionários e familiares, as secretarias municipais do
Meio Ambiente e da Educação de Barueri iniciaram a experiência
com a implementação da Agenda 21 Escolar. O processo de
implementação e a metodologia utilizada foram enfocados
por Tânia Mara Pereira da Silva, diretora de Educação
Ambiental da Secretaria do Meio Ambiente do município.
Tendo como objetivo a concientização ambiental da comunidade
escolar, a partir de um diagnóstico que resultou em um plano de
ação e metas, a experiência desenvolvida em Barueri
incluiu a criação de uma comissão organizadora, a
sensibilização por meio de palestras, filmes e ações
voluntárias, assim como a realização de pesquisas
nas escolas e diferentes setores da cidade, em um total de 19 mil questionários,
para a identificação dos temas que deveriam ser trabalhados.
O trabalho incluiu, ainda, atividades de capacitação dos
professores e funcionários das escolas públicas municipais,
que resultaram na formação de 1.500 multiplicadores e o
estabelecimento de parcerias para viabilizar a realização
das ações, elaboração de material, campanha
e divulgação dos projetos.
Entre os resultados obtidos, Tânia Mara citou a publicação
de uma "Agendinha 21", em forma de revista em quadrinhos, a
compatibilização de propostas aprovadas com o plano diretor
do município e sua inserção no planejamento urbano,
além do envolvimento dos alunos de 5ª a 8ª séries
de 26 escolas municipais, uma escola particular da região de Alphaville
e algumas unidades estaduais de ensino situadas no município.
Ribeirão
Pires
O
caso de Ribeirão Pires foi apresentado pelo secretário de
Desenvolvimento Sustentado daquele município, o arquiteto Luciano
Ricardo Azevedo Roda, que fez um relato da experiência iniciada
em 1997, promovendo uma transformação na relação
dos moradores com a cidade.
O município, totalmente inserido em área de proteção
aos mananciais da Região Metropolitana de São Paulo, era
visto pela população como a cidade "onde nada pode
ser feito" e as próprias autoridades municipais preferiam
ignorar as restrições impostas pela legislação,
fazendo vistas grossas às irregularidades, com a justificativa
de que não existiam alternativas para a sua sobrevivência.
Hoje, Ribeirão Pires encontra-se na lista das melhores cidades
para se investir, conforme lista publicada pela revista Exame.
Para isso foi necessário realizar a revisão do plano diretor,
adequando-o às necessidades impostas pela sua localização
e pelo Estatuto das Cidades. Entre as principais transformações
relatadas por Luciano Roda estão a elevação do município
a estância turística, o que abriu novas perspectivas de ocupação
e investimentos, que resultaram na obtenção do Selo de Município
Prioritário para o Desenvolvimento Turístico, concedido
pela Embratur, e o Selo de Ouro, obtido em 2002.
As questões ambientais e o desenvolvimento do município,
segundo disse, encontram-se harmonizadas e umas das evidências desse
processo está no fato do conselho ambiental, criado para propor
e implementar a Agenda 21 local ter se fundido com o Conselho Municipal
do Orçamento Participativo.
Texto: Mário
Senaga, Priscilla Martini e Eli Serenza
Fotos: José Jorge e Pedro Calado |



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