Especialistas defendem participação
da sociedade na gestão das águas


10|setembro|2004   

As cenas externas não poderiam ser mais apropriadas: dias de intenso calor e falta de umidade, associados à poluição e diminuição da capacidade dos reservatórios de água na Região Metropolitana de São Paulo. Com certeza, esse cenário não foi planejado, mas serviu para mostrar a importância do evento promovido pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente – SMA nesta quinta-feira (9/9).

Trata-se do Seminário “Gestão Participativa das Águas”, organizado pela Coordenadoria de Planejamento Estratégico e Educação Ambiental – CPLEA, da SMA, que reuniu um público formado por integrantes de comitês de bacias hidrográficas, ambientalistas, estudantes e profissionais das mais diversas áreas, que lotou o Auditório Augusto Ruschi.

Os palestrantes foram unânimes em apontar as dificuldades na gestão dos recursos hídricos no Estado de São Paulo, concordando que se deve estimular a participação cada vez maior de todos os segmentos da sociedade para o aprimoramento dessa modalidade de gerenciamento.

Entre outras considerações, Pedro Jacobi, da Faculdade de Educação da USP, afirmou que a temática da água transcende a visão imediatista do cidadão, considerando “absurdo o protelamento, que se reflete muito mais nas áreas metropolitanas, da instalação das redes de esgotos”, e disse que medidas como educação ambiental e co-responsabilidade não podem ser mais adiadas.

Jacobi fez reflexões sobre o significado do bem público, conceito que estaria escamoteado, diluído e que precisaria ser reforçado, afirmando ainda que, mesmo com o avanço representado pelos trabalhos desenvolvidos pelos comitês de bacias hidrográficas, verifica-se “nos últimos três anos, uma enorme paralisia nas decisões referentes à gestão das águas”, principalmente com relação à cobrança pelo uso da água dos rios. No seu entender, “o grande desafio é fazer avançar esta gestão participativa, agregando cada vez mais atores e formando quadros mais consistentes”.

Maria Luísa Borges Ribeiro, da Fundação SOS Mata Atlântica e do Fórum Paulista da Sociedade Civil, deu destaque para o “Documento da Sociedade Civil dos Comitês de Bacia do Estado de São Paulo”, produzido no 1º Fórum de Comitês de Bacia, no último dia 29 de julho, e assinado por 76 organizações da sociedade civil com representação em 16 comitês de bacia, como resultado da discussão sobre a situação do Sistema Paulista de Recursos Hídricos e avaliação da participação do segmento nesse sistema.

Entre os principais problemas e dificuldades elencados naquele encontro, a ambientalista lembrou que a sociedade civil tem de arcar com os custos para articular os comitês e câmaras técnicas e os eventos de interesse, pois, diferentemente de outros segmentos, as agendas de reuniões não consideram encontros fora do horário comercial, prejudicando a sua participação.

Além disso, citou o fato dos comitês não aprovarem projetos, mas apenas indicá-los, ficando sua aprovação por conta do agente técnico, e não existir monitoramento do processo de aprovação de projetos e de execução pelos comitês.

Entre os pleitos contidos no documento, Ribeiro citou a reestruturação imediata do Fórum Permanente da Sociedade Civil nos Comitês de Bacia com apoio do SIGRH e a criação imediata de comissão tripartite para revisão e aperfeiçoamento dos mecanismos do SIGRH, assim como a necessidade de revisão e aperfeiçoamento da representatividade e legitimidade do segmento. A palestrante enfatizou que a sociedade civil, Estado e Prefeituras têm de se unir para implementar a gestão participativa.

Rui Brasil Assis, da Secretaria de Estado de Energia, Recursos Hídricos e Saneamento, reiterou sua opinião de que se deve tratar o processo de gestão participativa das águas em São Paulo como vitorioso. Como exemplo, citou o próprio público que lotou o auditório no evento e lembrou que os aperfeiçoamentos terão de resultar de uma busca permanente, procurando sanar o que se detectou como falha ao longo do exercício da gestão.

Assis frisou que o foco da discussão deve ser o tratamento da água, uso racional e tratamento de esgoto, com uma visão a médio e longo prazos, lembrando que os comitês de bacia nasceram meio marginalizados mas que hoje são referências regionais. E concluiu que, em termos de gestão participativa, o maior desafio “é termos paciência, aprendendo a sabedoria produzida nas experiências, ao longo do tempo percorrido e amadurecendo o processo”.

Texto: Cris Olivette

Livro mostra formas de gestão
participativa de recursos hídricos

A escassez de água doce no planeta será um dos maiores problemas ambientais que a humanidade enfrentará no século XXI. Preocupada com a questão, a Secretaria do Meio Ambiente do Estado, por intermédio da Coordenadoria de Planejamento Estratégico e Educação Ambiental - CPLEA, editou a publicação "Gestão Participativa das Águas", que trata de questões relativas ao gerenciamento de recursos hídricos, especialmente a participação dos diversos segmentos da sociedade nos comitês de bacia.

Entre outros aspectos, o livro ressalta que apenas 2,5% da água do planeta é doce, sendo que somente 0,5% está disponível. Desse total, 54% já está sendo utilizada e, em 2025, esse índice poderá chegar a 70%. E faz um alerta: se o padrão de consumo for mantido até a metade deste século, cerca de sete milhões de pessoas, em sessenta países, serão afetadas pela crise da água.

O secretário estadual do Meio Ambiente, professor José Goldemberg, lembrou que o Estado de São Paulo é pioneiro na implantação da gestão integrada de recursos hídricos no País e salientou que “por meio desta publicação pode compartilhar sua experiência, fortalecer a gestão participativa nos comitês de bacia e consolidar um repertório comum de conceitos e práticas entre os diferentes atores".

Texto: Mário Senaga
Fotos: Zé Jorge e Pedro Calado


Pedro Jacobi, da Faculdade de Educação da USP