Desafios

As atividades agrícolas e industriais do setor sucroenergético têm grande influência sobre o meio ambiente. A expansão das áreas de cultivo em função do aumento da demanda traz consigo inevitáveis impactos ambientais no solo, recursos hídricos e sobre a fauna e flora. No entanto, para grande parte destes impactos há o potencial de mitigação, sendo que algumas situações requerem ações mais onerosas, enquanto outras podem ser facilmente resolvidas por meio de um planejamento mais adequado das atividades produtivas.

Os principais impactos ambientais decorrentes da atividade do setor são:

  • utilização da prática de colheita por meio da queima da palha da cana e acidentes relacionados ao fogo em áreas indesejáveis;
  • perda de solo por erosão hídrica;
  • acidentes relacionados à contaminação dos recursos hídricos por meio do manejo inadequado de agrotóxicos;
  • excesso do consumo de água nos processos industriais;
  • geração de poluentes atmosféricos;
  • geração de vinhaça e possível contaminação de cursos d’água com o manejo inadequado deste subproduto;
  • implantação de grandes áreas de monocultura resultando na formação de extensos espaços contínuos de plantio de cana-de-açúcar;
  • supressão de vegetação ciliar de corpos d’água e nascentes e corte de indivíduos isolados, e a conseqüente redução da biodiversidade, tanto de flora quanto de fauna.

A prática da queima da palha da cana para a colheita manual tem sérios impactos sobre o meio ambiente e a saúde pública. A utilização inadequada do fogo causa impactos negativos sobre a fauna, aprisionando animais silvestres no meio do fogo do canavial, e sobre a flora, com a eventual propagação do fogo para áreas de mata. Além disso, os gases formados durante a queima da cana contribuem para a formação da chuva ácida e para o aquecimento global. A liberação de material particulado e de aerossóis durante a queima tem sérios efeitos danosos ao sistema respiratório humano, afetando principalmente crianças e idosos.

Para a eliminação da queima da palha da cana-de-açúcar e a implementação de um sistema de colheita mecanizado, deve-se investir em máquinas, equipamentos e capacitação de mão de obra, além de adequar a configuração dos talhões para a adequada movimentação das máquinas. A colheita da cana crua deixa a palha da cana no solo, protegendo-o de fatores de degradação como ventos e chuvas, além de manter a umidade e aumentar seu teor de nutrientes. O sombreamento do solo propiciado pela camada de palha ainda ajuda a prevenir o crescimento de plantas indesejadas.

Parte da palha pode ainda ser aproveitada em outros processos, como na produção de energia elétrica. De um modo geral, a queima do bagaço nas caldeiras já produz energia suficiente para suprir o consumo da usina; com a queima adicional da palha as usinas podem gerar excedentes de energia para serem exportados para a rede elétrica.

Contudo, o processo de mecanização ainda recebe algumas críticas. A colheita mecanizada pode ser economicamente inviável para pequenos produtores, além de ser mais difícil a entrada de maquinário em propriedades pequenas. Ainda, as máquinas atualmente disponíveis não comportam a colheita em áreas de declive. O processo também enfrenta pesadas críticas no aspecto social, pois a mecanização diminui a necessidade de mão de obra do campo e requer programas de capacitação para realocação parcial dos funcionários em outras funções da agroindústria, compensando com o aumento na demanda para operação de maquinários e na formação de frentes de colheita mecânica, por exemplo.

Em relação ao uso da água, todo o consumo ocorre no processamento industrial da cana. Os problemas relacionados ao excesso de uso de água estão sendo resolvidos com modificações nas plantas agroindustriais para a implantação de sistemas de reuso e de sistemas fechados. A maior pressão para estas modificações estruturais parte de exigências dos órgãos ambientais para a renovação de licenças de operação e pela iminente implantação do sistema de cobrança pelo uso da água.

A extensão da monocultura da cana por grandes áreas levou, durante anos de desenvolvimento do setor, à devastação de áreas de vegetação nativa, inclusive da vegetação ao longo de cursos d’água e de nascentes, protegidas por lei pela função ecológica e estrutural que elas desempenham. As matas ciliares estruturam os solos das margens dos rios, preservando a qualidade do solo e prevenindo a erosão e mantendo a qualidade e quantidade da água. Desta forma, a preservação desta vegetação é extremamente importante para manter a integridade dos recursos naturais e a qualidade da área de cultivo.

Atualmente, já vêm sendo observadas diversas alterações de comportamento do setor sucroenergético frente às questões ambientais e sociais, devido principalmente às demandas dos mercados interno e externo em relação à sustentabilidade sócio-ambiental. O principal desafio para o setor é provar ao mercado consumidor que a produção de açúcar e etanol brasileiros é feita com responsabilidade social e com técnicas produtivas pouco impactantes ao meio ambiente.

O setor tem um grande potencial para aumentar o valor agregado de suas atividades, uma vez que a porção da cana-de-açúcar utilizada para produção de açúcar e etanol corresponde à apenas um terço do potencial energético da planta. Os outros dois terços são representados pelo bagaço e folhas, que podem ser utilizados para produção de energia elétrica, dentre outros usos. Já existem, em escala experimental, as tecnologias de produção do etanol de segunda geração por hidrólise da celulose e de gaseificação da biomassa da cana, que permitem, por meio da obtenção de gás de síntese, a fabricação de produtos como gasolina, plásticos e diesel. O desenvolvimento da cadeia alcoolquímica também abrirá mais possibilidades de agregação de valor na cadeia produtiva.