O fenômeno aterrorizante que está empurrando espécies para a extinção

Antílopes saiga mortos em um campo no Cazaquistão. Aproximadamente 20 mil espécie foram encontrados mortos em uma semana. Foto: Reuters

Matéria feita pelo The Guardian em 25 de fevereiro de 2018
Texto: David Derbyshire

Os cientistas estão alarmados com o aumento dos eventos de mortalidade em massa – quando as espécies morrem em milhares. Tudo está relacionado com as mudanças climáticas?

Havia algo quase bíblico sobre a cena de devastação que se encontra diante de Richard Kock, enquanto ele estava no deserto do estepe do Cazaquistão. Os cadáveres de milhares e milhares de antílopes saiga (Saiga tatarica) estavam dispersos por toda a planície gramada até onde a vista alcançava. Todos pareciam ter caído onde eles estavam se alimentando.

Algumas eram mães que haviam viajado para o deserto remoto para a estação reprodutiva anual, enquanto outros eram seus descendentes, com apenas alguns dias de idade. Cada um deles havia morrido em poucas horas por envenenamento de sangue. No calor de 30oC de um dia de maio, o ar em torno de cada uma das carcaças apodrecidas estava repleto de moscas.

A mesma história terrível foi reproduzida em todo o Cazaquistão. Neste massacre de primavera, estima-se que cerca de 200 mil antílopes saiga, criticamente em perigo de extinção, aproximadamente 60% da população mundial, morreram. “Todas as carcaças em uma das muitas zonas de matança foram distribuídas uniformemente em mais de 20 quilômetros quadrados”, diz Kock, professor de saúde da vida selvagem e doenças emergentes do Royal Veterinary College em Londres. “O padrão era estranho. Eles estavam pastando normalmente com seus filhotes recém-nascidos ou morrendo onde estavam, como se um interruptor tivesse sido ligado. Nunca vi nada assim”.

O antílope saiga, cujas migrações formam um dos grandes espetáculos da vida selvagem, foram vítimas de um único evento de mortalidade em massa (EMM), incidente catastrófico que extermina um grande número de espécies num curto período de tempo. EMMs estão entre os eventos mais extremos da natureza. Eles afetam as estrelas-do-mar, morcegos, recifes de corais e sardinhas. Eles podem levar as espécies à beira da extinção ou dificultar a complexa rede da vida num ecossistema. E, de acordo com os cientistas, os EMMs estão em ascensão e provavelmente se tornarão mais comuns por causa das mudanças climáticas.

As estrelas-do-mar ocres (Pisaster ochraceus) foram a espécie que esteve entre as mais atingidas pelo evento de mortalidade em massa que atingiu as estrelas-do-mar na costa do Pacífico da América do Norte em 2013. Foto: Paul Williams/BBC

O EMM levou o antílope saiga mais perto de atingir a extinção em 2015. Kock fazia parte de uma equipe internacional que estudava os animais enquanto eles se reuniam na temporada reprodutiva. Durante a maior parte do ano, o antílope saiga está em movimento, sendo capaz de evitar lobos predadores e caçadores humanos ao correrem a mais de 65 km/h, o que os tornam um dos ungulados ou dos animais de casco mais rápidos do mundo. Mas, uma vez por ano, eles colocam uma pausa na migração para procriarem em grandes grupos quando a grama está mais exuberante, antes de ser queimada pelo sol.

Em 2015, a principal reunião dessa espécie foi na região de Betpak-Dala, no centro do Cazaquistão, uma área equivalente ao tamanho das ilhas britânicas, chegando a reunir cerca de 250 mil. Perto dali, outros grupos eram de milhares mais fortes. Antílope saiga são animais notáveis. Seu nariz bulboso, pendurado sobre suas bocas, dá a esses antílopes uma aparência quase cômica. O nariz é flexível e pode ser inflado, ajudando-os a respirar ar quente nos invernos gelados e a filtrar o ar nos verões áridos enquanto eles correm com a cabeça baixa em uma nuvem de poeira. A espécie já foi atingida por mortes em massa antes. Em 1981, cerca de 70.000 morreram repentinamente em alguns dias, enquanto em 1988 outros 200.000 morreram. As criaturas também são vítimas de caçadores ilegais.

“Em 2014, acreditamos que havia cerca de 250 mil [antílopes] adultos e eles produziram um bom número de filhotes – talvez alguns milhares. Parecia uma população viável e esperávamos uma população de um milhão em breve. Havia mesmo uma conversa de que eles estariam saindo da lista de criticamente ameaçados de extinção”, diz Kock.

Mas, como os cientistas notaram um ano mais tarde, as mães ficaram doentes e começaram a morrer. “Não era como se a doença começasse e se espalhasse – não havia tempo para a transmissão do patógeno de animal para animal. Foi muito rápido”, diz ele. “Em dois ou três dias, tudo estava morrendo. No final da semana, cada um deles já estava morto”.

No local, os cientistas identificaram o envenenamento no sangue como a causa dessa morte em massa, mas ficaram intrigados com o motivo pelo qual os rebanhos inteiros estavam morrendo tão rapidamente. Após 32 autópsias, eles concluíram que o culpado era a bactéria Pasteurella multocida, que se acreditava que normalmente vive de forma inofensiva nas amígdalas de alguns, se não de todos, antílopes. Em um artigo de pesquisa publicado em janeiro na revista Science Advances, Kock e seus colegas compararam o evento de morte em massa de 2015 com os dois ocorridos nos anos 80. Eles concluíram que um aumento na temperatura para 37°C e um aumento da umidade superior a 80% nos dias anteriores estimularam as bactérias a alcançar a corrente sanguínea, causando septicemia hemorrágica viral ou envenenamento por sangue.

A ligação meteorológica levanta o espectro das mudanças climáticas. Assim como raramente acontece de que um único evento de clima extremo – seja a onda de calor australiana, o furacão Harvey ou a onda de frio norte-americano no inverno – seja ligado às mudanças climáticas, é igualmente difícil culpar o aquecimento global pelo EMM. Mas o que se pode afirmar com confiança é que os tipos de eventos climáticos extremos ligados a EMMs – como o aumento da temperatura e da umidade que quase eliminaram a saiga – se tornarão mais frequentes.

Os australianos sabem tudo sobre clima extremo. Enquanto grande parte da Europa e da América do Norte tenha sofrido um amargo começo ao ano, o verão australiano tem sido escaldante. Em janeiro, as temperaturas em Sydney atingiram 47°C, a maior da cidade desde 1939. O preço pago pela vida selvagem tem sido devastador. À medida que a temperatura se elevava, cadáveres de morcegos raposas-voadoras – ou morcegos-das-frutas –  criticamente ameaçadas de extinção, começaram a se acumular debaixo das árvores em New South Wales. Em uma colônia em Campbelltown, ao sul de Sydney, ativistas da vida selvagem horrorizados descobriram 400 morcegos mortos. Alguns ainda estavam pendurados nas árvores. Muitos deles eram bebês abandonados por seus pais em sua busca desesperada por sombra.

Os morcegos raposas-voadoras estão bem adaptados aos verões australianos normais. Porém acima dos 40oC, eles são incapazes de regular a temperatura corporal e podem morrer de superaquecimento. As mortes deste ano foram bastante severas, mas foram poucas comparada ao EMM de 2014, quando pelo menos 45 mil morcegos raposas-voadoras foram mortos em um dia quente no sudeste de Queensland. Em algumas colônias, havia mais morcegos mortos do que vivos. Seus cadáveres foram empilhados no chão enquanto outras três espécies – o preto, o pequeno vermelho e o de cabeça-cinza – eram atingidas.

Eventos como o desastre que atingiu os morcegos raposas-voadoras e os antílopes saiga parecem estar crescendo em número. O estudo mais aprofundado sobre o EMM, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, em 2015, revelou que houve 727 relatos deste tipo de evento, envolvendo 2.407 populações de animais desde 1940. O estudo mostra que não só os relatórios de EMMs estão aumentando, em cerca de um evento por ano, mas que o número de animais mortos em cada evento está em crescimento para aves, peixe e invertebrados marinhos.

Adam Siepielski, ecologista evolucionista da Universidade do Arkansas e co-autor do artigo, ficou fascinado pelos fenômenos após ouvir uma reportagem de rádio sobre milhões de sardinhas e anchovas morrendo. “Estes relatórios de EMMs provavelmente são subestimados em termos de ocorrência e grandeza”, diz ele. “Além disso, há também um desafio em tentar entender se esta ocorrência aumentada é um evento real, ou se há mais pessoas observando essas coisas e [elas] são mais propensas a relatá-las. Nós chamamos isso de epidemia de consciência”.

O estudo descobriu que doença era o maior fator nos EMMs, desempenhando um papel relevante em um quarto dos casos. Aproximadamente 19% dos eventos estavam diretamente ligados ao comportamento humano, como a poluição. Fatores ligados diretamente ao clima, incluindo calor e frio extremos, estresse de oxigênio e fome, contribuíram coletivamente para certa de um quarto dos eventos.

É difícil descartar as causas e desenvolver o papel das mudanças climáticas nos EMMs. “Em muitos casos, existem múltiplos estressores, como, no caso do antílope saiga, uma infecção bacteriana, umidade ligeiramente maior e temperaturas mais altas”, diz Siepielski.

Morcegos raposas-voadoras, conhecidos como morcegos-das-frutas. Em 2014, pelo menos 45 mil deles morreram em um dia de superaquecimento em Queensland, Austrália. Foto: Reuters

“Há alguns eventos de mortalidade em massa que estão diretamente ligados a ondas de calor ou de frio extremos. Em outros casos, poderia estar relacionados a mudanças indiretas, onde as alterações na temperatura causam doenças mais comuns e que levam a um EMM”.

Acredita-se que esse tipo de surto relacionado à temperatura esteja por trás de uma das maiores mortes já observadas no mundo natural, em que centenas de milhões de estrelas do mar na costa oeste da América começaram a “derreter” em uma substância grudenta branco. Mais de 20 espécies de estrelas do mar, ao longo da costa do México para o Alasca, foram atingidas pela doença, uma condição causada por um parvovírus, um grupo de vírus que causam problemas gastrointestinais em animais. O vírus deixa a estrela do mar vulnerável à infecção bacteriana. Em uma ou duas semanas de infecção, cortes brancos apareceram em seus corpos e as criaturas ficaram apáticas. Alguns arrancaram os braços infectados e tentaram se mover. Mas, para a maioria, a doença era mortal. Como a bactéria que desencadeou o EMM no antílope saiga, o vírus parece estar presente na estrela do mar há décadas, se não mais. Amostras armazenadas em museus desde a década de 1940 foram testadas positivamente.

Um EMM pode empurrar uma espécie para perto da extinção. Mas também pode ter efeitos indiretos em outras partes da frágil teia alimentar. Em piscinas de maré na costa oeste, onde antes havia uma mistura saudável de espécies, mexilhões – comida para estrelas do mar – estão começando a dominar. Fora da Califórnia, outra fonte de comida de estrela do mar, ouriços-do-mar, também estão em alta – causando uma queda na disponibilidade de alga marinha, a principal fonte de alimento dos ouriços-do-mar. Esse declínio pode afetar as espécies que dependem dele para abrigo, alimentação e proteção.

Um artigo publicado no ano passado na revista Philosophical Transactions of the Royal Society  concluiu que essas mortse provavelmente estavam ligadas a mares mais quentes. A equipe, liderada por Morgan Eisenlord, da Universidade de Cornell, analisou os vínculos entre a temperatura do oceano e a doença nas espécies mais comuns na costa oeste, como a estrela-do-mar ocre, além de testar os efeitos da água quente no laboratório. Eles concluíram que a água mais quente do que o habitual não colocou a estrela do mar sob estresse, mas tornou os agentes infecciosos mais prevalentes.

Kock está confiante de que as mudanças climáticas levarão a mais EMMs, tornando espécies vulneráveis mais próximas da extinção e alterando a rede alimentar. Ele acredita que os conservacionistas devem estar atentos a outros eventos de mortalidade em espécies como renas e alces. “A tragédia é que provavelmente veremos mais eventos como o evento que afetou o antílope saiga”, ele afirma. “A evolução leva milhões de anos e, se tivermos uma mudança nas condições ambientais, tudo o que se desenvolve nesse ambiente particular está sob diferentes pressões. Os micróbios se adaptam e podem responder às mudanças rapidamente, mas os mamíferos precisam de centenas de milhares de anos ou milhões de anos para se adaptar. Essa é a verdadeira preocupação”.

The Guardian
25 de fevereiro de 2018